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Gramática · Guia pilar

Gramática do francês para iniciantes: o mapa completo do que estudar e em que ordem

A gramática francesa não é difícil — ela é mal organizada nos livros. Aqui está o mapa completo na ordem que importa: a da necessidade de comunicar. Cada tópico tem um parágrafo aqui e um guia completo para se aprofundar.

por Yann Amoussou, professor nativo · leitura de 14 min
Resposta rápida: não estude a gramática do francês na ordem do livro — estude na ordem em que você precisa dela para falar. Primeiro o que monta uma frase (artigos, gênero, être/avoir, presente dos verbos -er); depois o que abre a conversa (negação, perguntas, adjetivos); por fim o que dá profundidade (pronomes, passado, futuro). Este guia é esse mapa, com um caminho para cada tópico.

Por que a ordem do livro te atrasa

A maioria dos livros de francês organiza a gramática por categoria — primeiro todos os artigos, depois todos os adjetivos, depois toda a conjugação — como um dicionário. Faz sentido para consultar, mas é péssimo para aprender. Você acaba decorando regras que não consegue usar em nenhuma frase, e a sensação é de estar avançando sem nunca falar nada.

A ordem que funciona é outra: a da necessidade comunicativa. Você aprende primeiro o que precisa para dizer a frase mais simples possível, usa essa frase de verdade, e só então acrescenta a próxima peça. Em vez de uma pilha de regras, você constrói uma estrutura — cada tópico apoiado no anterior.

Repare como uma frase mínima já exige várias peças juntas: Je suis un étudiant brésilien. (Sou um estudante brasileiro.) Aí estão o verbo être, o artigo un, o gênero (masculino), e um adjetivo concordando. Não dá para isolar uma coisa só. Por isso o mapa abaixo está em ordem de uso: do que abre a boca primeiro ao que dá profundidade depois.

Uma observação que repito em toda primeira aula: você não precisa terminar um tópico para começar o próximo. Aprende o suficiente para falar, fala, erra, é corrigido — e a regra gruda no uso. Gramática não se decora antes; se constrói durante.

1. Os artigos (le, la, un, une, du)

O francês quase nunca deixa um substantivo sozinho — ele quase sempre vem com um artigo na frente. São três famílias. O definido (le, la, les — o, a, os/as) aponta algo específico. O indefinido (un, une, des — um, uma, uns/umas) introduz algo novo. E o partitivo (du, de la, des), que o português não tem, indica uma quantidade indefinida de algo que não se conta — comida, bebida, ideias abstratas.

le café (o café — aquele café específico)

un café (um café)

du café (café — uma quantidade dele, como em "quero café")

O partitivo é o que mais estranha no começo, porque em português a gente simplesmente não diz nada: "bebo café". Em francês é obrigatório: je bois du café. Comece dominando o definido e o indefinido, que já cobrem a maioria das frases. Veja o guia completo dos artigos, com a tabela das três famílias e quando usar cada uma.

⚠️ O erro que entrega o estrangeiro

Em português você omite o artigo o tempo todo ("gosto de café", "tenho carro"). Em francês isso soa errado: é j'aime le café e j'ai une voiture. O instinto de cortar o artigo é o tropeço mais comum de quem vem do português — quando estiver em dúvida, quase sempre falta um artigo, não sobra.

2. Gênero e número das palavras

Toda palavra em francês é masculina ou feminina, exatamente como em português — a diferença é que o gênero nem sempre coincide entre as duas línguas. E como o artigo, o adjetivo e às vezes o verbo concordam com esse gênero, errá-lo derruba a frase inteira em cadeia.

PalavraGênero em francêsEm português
une voiture (carro)femininomasculino
un livre (livro)masculinomasculino
une équipe (time/equipe)femininomasculino ("o time")
un problème (problema)masculinomasculino

O número (plural) é mais tranquilo: na maioria das palavras você só acrescenta um -s que, atenção, não se pronuncia — quem marca o plural na fala é o artigo (le livreles livres, soa "lê"). O segredo do gênero não é uma lista de regras, é aprender cada palavra junto com o seu artigo, desde o primeiro dia. Veja o guia completo de gênero das palavras, com as terminações que ajudam a adivinhar e as armadilhas que enganam o português.

3. Être e avoir — os dois pilares

Se você só pudesse aprender dois verbos antes de viajar, seriam estes. Être (ser/estar) e avoir (ter) sustentam metade do que você vai dizer — sozinhos e também como verbos auxiliares para montar o passado, mais adiante. São irregulares, então vale memorizá-los cedo:

Pessoaêtre (ser/estar)avoir (ter)
jesuisai
tuesas
il / elleesta
noussommesavons
vousêtesavez
ils / ellessontont

Com eles você já diz quem é, como está e o que tem: je suis brésilien (sou brasileiro), elle est fatiguée (ela está cansada), j'ai vingt ans (tenho vinte anos). Note a última: idade em francês se diz com avoir, não com être — você "tem" anos, não "é" anos. Veja o guia completo de conjugação, que organiza todos os verbos e tempos a partir desses dois pilares.

4. O presente dos verbos em -er

Aqui está a maior alavanca do iniciante. Cerca de 90% dos verbos franceses terminam em -er (como parler, falar; manger, comer; habiter, morar) e todos seguem o mesmo padrão no presente. Aprenda uma vez e destrava centenas de verbos de uma só vez.

Pessoaparler (falar)terminação
jeparle-e
tuparles-es
il / elleparle-e
nousparlons-ons
vousparlez-ez
ils / ellesparlent-ent (mudo)

Detalhe que pega muita gente: as três terminações -e, -es e -ent soam exatamente iguais — todas mudas. je parle, tu parles e ils parlent têm a mesma pronúncia; é o pronome na frente que diz quem fala. Com este padrão mais être e avoir, você já constrói conversas inteiras no presente.

✅ A regra que vale por cem

Pegue qualquer verbo terminado em -er, tire o -er e cole as terminações da tabela. habiterj'habite, aimerj'aime, travaillerje travaille. As exceções importantes no começo são poucas: aller (ir) é irregular, e manger/commencer têm um ajustezinho de grafia no nous. Fora isso, é o mesmo molde para todos.

5. A negação (ne... pas)

Em francês, a negação é uma sanduíche: você "abraça" o verbo com duas palavras, ne antes e pas depois. Onde em português basta um "não" na frente, em francês são duas peças cercando o verbo.

Je parle français. (Falo francês.)

Je ne parle pas français. (Não falo francês.)

Na fala do dia a dia, o ne muitas vezes some — os franceses dizem je parle pas — mas na escrita e no exame ele é obrigatório, então aprenda com os dois. Existem outras "metades" além do pas: ne... jamais (nunca), ne... rien (nada), ne... plus (não mais). Veja o guia completo da negação, com a posição de cada peça e o que acontece com o artigo depois do verbo negado.

6. Fazer perguntas

O francês tem três jeitos de fazer a mesma pergunta, do mais informal ao mais formal — e isso é uma boa notícia, porque você pode começar pelo mais fácil e ser entendido em qualquer situação.

JeitoExemploRegistro
EntonaçãoTu parles français ?informal, falado
est-ce queEst-ce que tu parles français ?neutro, serve sempre
InversãoParles-tu français ?formal, escrito

Os três significam "você fala francês?". Comece pela entonação (só levantar a voz no fim) e pelo est-ce que, que funciona em qualquer contexto sem risco de errar. A inversão fica para quando você já estiver confortável. As palavras de pergunta — (onde), quand (quando), comment (como), pourquoi (por quê) — encaixam nos três formatos. Veja o guia completo de como fazer perguntas, com os três formatos lado a lado e quando usar cada um.

7. Adjetivos: posição e concordância

Duas coisas mudam em relação ao português. Primeiro, o adjetivo francês concorda em gênero e número com o substantivo — geralmente acrescentando -e no feminino e -s no plural. Segundo, a maioria vem depois do substantivo, como em português, mas um grupo pequeno e muito frequente vem antes.

un livre intéressant (um livro interessante — adjetivo depois)

une grande maison (uma casa grande — adjetivo antes)

des voitures rouges (carros vermelhos — concordando no plural)

Os que vêm antes são poucos e dá para memorizar como um grupinho: grand (grande), petit (pequeno), bon (bom), beau (bonito), jeune (jovem), vieux (velho), nouveau (novo). Os adjetivos de cor, forma e nacionalidade sempre vêm depois.

8. Possessivos (mon, ma, mes)

Aqui mora uma das maiores ciladas para você. O possessivo francês concorda com a coisa possuída, não com quem possui. Em português, "meu/minha" varia conforme o objeto — e em francês é igual, mas a tabela tem um detalhe a mais no singular:

PossuidorMasc. sing.Fem. sing.Plural
meu/minhamonmames
seu/sua (tu)tontates
dele/delasonsases

A cilada está em son/sa: como concorda com o objeto, sa voiture pode ser "o carro dele" ou "o carro dela" — quem decide é o contexto, não a palavra. E atenção: antes de palavra feminina que começa com vogal, usa-se mon em vez de ma (mon amie, e não "ma amie"), só para a pronúncia fluir.

9. Preposições (à, de, en, chez)

As preposições são pequenas mas teimosas — raramente traduzem uma a uma do português, e por isso se aprendem mais por uso do que por regra. As quatro que você mais vai precisar no começo:

  • à — lugar onde se está/vai, hora: je vais à Paris (vou a Paris), à midi (ao meio-dia).
  • de — origem, posse, matéria: je viens de São Paulo (venho de São Paulo), le livre de Marie (o livro da Marie).
  • en — países femininos, meses, meios de transporte: en France (na França), en train (de trem).
  • chez — "na casa de / no consultório de", sem equivalente direto: chez moi (na minha casa), chez le médecin (no médico).

Um ponto que confunde: à e de se fundem com os artigos definidos. à + le = au (au cinéma), de + le = du (du parc). Não force a tradução literal — anote a preposição junto com a expressão em que ela aparece.

10. Pronomes (COD, COI, en, y)

Os pronomes substituem palavras já ditas para você não repetir — "vejo o livro" vira "o vejo". A grande diferença para o português é a posição: em francês, o pronome quase sempre vem antes do verbo.

Je vois Marie.Je la vois. (Vejo a Marie → Vejo-a / A vejo.)

Je parle à Marie.Je lui parle. (Falo com a Marie → Falo com ela.)

A distinção-chave é entre COD (objeto direto: le, la, les) e COI (objeto indireto, com preposição: lui, leur). Há ainda dois pronomes que o português não tem: en (substitui algo introduzido por de) e y (substitui um lugar ou algo com à). Este é um tópico de fim do A1 para A2 — chegue nele depois que o presente, a negação e as perguntas já estiverem firmes.

11. O passado (passé composé × imparfait)

O francês tem dois passados principais para o dia a dia, e o segredo não é conjugá-los, é saber qual usar quando. O passé composé conta uma ação pontual, concluída ("ontem eu fui ao cinema"). O imparfait descreve o cenário, o hábito, o que estava acontecendo ("quando eu era criança, eu ia muito ao cinema").

Hier, j'ai mangé une pizza. (Ontem comi uma pizza — ação pontual, passé composé.)

Quand j'étais petit, je mangeais beaucoup de pizza. (Quando eu era pequeno, comia muita pizza — hábito, imparfait.)

O passé composé se monta com avoir ou être no presente + o particípio do verbo (j'ai mangé, je suis allé) — é aqui que aqueles dois pilares do tópico 3 voltam a trabalhar. Por isso este tópico vem depois deles, e não antes. Veja o guia completo de conjugação para os tempos do passado em detalhe, com a lista de verbos que usam être.

12. O futuro (futur proche e futur simple)

Como no português, há um jeito fácil e um jeito formal de falar do futuro — e o fácil resolve quase tudo no começo. O futur proche usa o verbo aller (ir) + infinitivo, exatamente como o nosso "vou fazer": é o que você vai usar 90% das vezes. O futur simple é o futuro "de uma palavra só" (je ferai, farei), mais formal e típico da escrita.

Je vais voyager en France. (Vou viajar para a França — futur proche, o fácil.)

Je voyagerai en France. (Viajarei para a França — futur simple, formal.)

Comece só pelo futur proche: se você já sabe conjugar aller no presente (je vais, tu vas, il va...), basta colar o infinitivo do outro verbo e pronto, você fala do futuro. O futur simple entra mais tarde, quando você for refinar a escrita.

A dica do nativo

"O aluno chega achando que precisa 'terminar a gramática' antes de abrir a boca — e fica preso meses numa apostila sem nunca dizer uma frase. Eu faço o contrário: na primeira aula a gente já monta frases reais com être, avoir e um verbo em -er. A gramática entra resolvendo uma dificuldade que apareceu na conversa, não antes dela. É assim que ela gruda — porque você sentiu falta dela, usou, e foi corrigido na hora."

Por onde começar de verdade

Se você está começando do zero hoje, não tente abraçar os doze tópicos de uma vez. Esta é a sequência que faz você falar mais rápido — do que abre a boca ao que dá profundidade:

  1. Artigos + gênero — porque nenhum substantivo anda sozinho em francês.
  2. Être e avoir — os dois verbos que sustentam metade das suas frases.
  3. Presente dos verbos -er — um padrão que destrava centenas de verbos.
  4. Negação e perguntas — com isso você já conversa, não só afirma.
  5. Adjetivos, possessivos e preposições — o que dá cor e detalhe às frases.
  6. Pronomes, passado e futuro — a profundidade que vem quando a base já é automática.

Se a sua meta é um exame, vale ver também o que cai no DELF A1 — é exatamente essa base gramatical que aparece na prova, e olhar para ela ajuda a priorizar. E como número também é estrutura que trava o iniciante, dê uma olhada nos números em francês (o problema do 70, 80 e 90). Um tópico de cada vez, apoiado no anterior — é assim que a gramática deixa de ser uma pilha de regras e vira uma língua que você fala.

✏️ Teste rápido da base

Tente montar cada frase em francês com o que viu acima antes de conferir. O objetivo não é acertar tudo — é ver quais peças já encaixam sozinhas:

  1. "Sou brasileiro e tenho um carro." (être + avoir + artigo + gênero)
  2. "Não falo inglês." (negação + presente -er)
  3. "Você mora em Paris?" (pergunta + preposição)
Ver respostas
1. Je suis brésilien et j'ai une voiture. (repare: voiture é feminino → une.)
2. Je ne parle pas anglais. (a negação abraça o verbo parle.)
3. Est-ce que tu habites à Paris ? — ou, mais informal, Tu habites à Paris ?

Quer montar a sua base de gramática na ordem certa?

Numa aula eu vejo de onde você parte, escolho com você os tópicos que destravam mais rápido o seu caso e a gente já monta frases de verdade desde o primeiro dia. É o jeito mais rápido de sair da apostila e começar a falar — porque a gramática gruda quando alguém te corrige na hora.

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