À vs de em francês: as duas preposições que mudam tudo (e as contrações au/du)
São duas palavrinhas de uma letra, mas decidem se você está indo ou voltando, se algo é seu ou de outro, e qual verbo casa com qual. E quando elas encontram um artigo, viram au, aux, du, des — sem pedir licença. Entenda à e de de uma vez.
À: destino, tempo e a quem
Pense em à como uma seta que aponta para um alvo: para onde você vai, em que momento, e a quem você dirige a ação. É a preposição do destino.
Je vais à Paris. (Vou a Paris — destino.)
Le cours commence à 8 heures. (O curso começa às 8 horas — tempo.)
Je parle à mon professeur. (Falo com meu professor — a quem.)
Esse último caso costuma te pegar de surpresa: em português você "fala com alguém", mas em francês parler à quelqu'un usa à, não a ideia de "com". A seta aponta para a pessoa que recebe a fala. O mesmo vale para téléphoner à (telefonar a/para), écrire à (escrever a/para) e donner à (dar a/para).
De: origem, posse e tema
Se à é a seta que aponta para o alvo, de é a seta que aponta para a fonte: de onde algo vem, de quem é, do que se trata.
Je viens de Paris. (Venho de Paris — origem.)
C'est le livre de Marie. (É o livro da Marie — posse.)
Nous parlons de la France. (Falamos da França — tema.)
A posse é o ponto onde o francês mais difere do português. Aqui não existe apóstrofo de posse como no inglês nem uma estrutura própria: a posse se monta sempre com de, na ordem coisa + de + dono. "A casa do meu pai" vira la maison de mon père — literalmente "a casa de meu pai". Guardar de = "de / do / da" já resolve metade dos casos.
Treine sempre em dupla: je vais à Paris (vou a Paris) e je viens de Paris (venho de Paris). Uma frase aponta para frente, a outra para trás. Quando esse contraste estiver automático na sua cabeça, escolher entre à e de deixa de ser dúvida.
As contrações: au, aux, du, des
Aqui está o detalhe que mais confunde — e a parte mais importante deste guia. Quando à ou de aparecem antes do artigo definido le ou les, elas se fundem obrigatoriamente numa palavra só. Não é opcional, não é estilo: é regra. As formas à le e de le simplesmente não existem em francês.
| Preposição + artigo | Vira | Exemplo | Português |
|---|---|---|---|
| à + le | au | au parc | ao parque |
| à + les | aux | aux enfants | às crianças |
| de + le | du | du musée | do museu |
| de + les | des | des amis | dos amigos |
| à + la | à la (não muda) | à la maison | em casa |
| à + l' | à l' (não muda) | à l'école | na escola |
| de + la | de la (não muda) | de la ville | da cidade |
| de + l' | de l' (não muda) | de l'hôtel | do hotel |
Repare na lógica: só le e les contraem. O feminino la e o l' (usado antes de vogal, masculino ou feminino) ficam intactos. Então você diz au parc mas à la maison; du musée mas de la ville. Se quiser revisar quando o artigo é le, la ou les, o guia dos artigos definidos em francês destrincha isso.
Verbos que pedem à ou de
Alguns verbos exigem uma preposição fixa, e trocá-la muda — ou destrói — o sentido. Não há tradução literal que salve: você associa o verbo à sua preposição como um par só.
| Verbo + à | Verbo + de |
|---|---|
| penser à (pensar em) | parler de (falar de/sobre) |
| jouer à (jogar — esporte/jogo) | jouer de (tocar — instrumento) |
| téléphoner à (telefonar a) | venir de (vir de) |
| répondre à (responder a) | avoir besoin de (precisar de) |
O par mais traiçoeiro é jouer. Para jogos e esportes, é jouer à: jouer au football (jogar futebol), jouer aux cartes (jogar cartas). Para instrumentos musicais, é jouer de: jouer du piano (tocar piano), jouer de la guitare (tocar violão). Dizer jouer au piano faria um francês imaginar você disputando uma partida contra o instrumento.
"Eu não peço para o aluno decorar 'penser leva à, parler leva de'. Isso não gruda. O que gruda é o verbo já vindo colado na preposição, dito em voz alta: penser à toi, parler de toi, jouer au foot, jouer du piano. Repete o bloco inteiro até ele sair sozinho. E a contração eu treino do mesmo jeito — o aluno nunca pensa 'à mais le igual au'. Ele só ouve au parc sair pronto da boca, como se fosse uma palavra que sempre existiu."
O erro clássico: dizer "à le"
Quase todo erro com à e de no começo vem de montar a contração na mão. Você raciocina "à + parque masculino = à le parc" e fala assim, devagar, peça por peça. Soa errado na hora — porque essa combinação não existe no idioma.
1. Dizer "à le" ou "de le". Sai je vais à le parc ou la porte de le musée. Os dois estão errados: o certo é je vais au parc e la porte du musée. Sempre que vier le ou les depois de à/de, funde: au, aux, du, des.
2. Trocar à por de (ou o contrário) com o verbo errado. Como em português se "fala de futebol" e se "joga futebol", o instinto bagunça as preposições francesas. Mas é parler de football (falar de futebol) e jouer au football (jogar futebol). Cada verbo carrega a sua.
A boa notícia: uma vez que a contração vira reflexo, ela vale para tudo — inclusive para preposições compostas terminadas em de, como à côté du parc ou en face des magasins, que aparecem no guia de preposições de lugar em francês. E se você ainda está montando a base, vale começar pelo mapa geral em gramática do francês para iniciantes.
Hora de treinar
Contração e escolha de preposição você não decora — você automatiza. Complete cada frase com a forma certa antes de conferir o gabarito.
Escolha a forma certa (contraindo quando preciso) para cada frase:
- Je vais ___ parc avec les enfants. (vou ao parque — à + le)
- C'est la voiture ___ professeur. (é o carro do professor — de + le)
- Le soir, elle joue ___ piano. (à noite, ela toca piano)
- Nous parlons ___ vacances. (falamos das férias — de + les)
- Il téléphone ___ sa mère. (ele telefona para a mãe)
Ver respostas
2. C'est la voiture du professeur. (de + le → du, posse.)
3. Elle joue du piano. (instrumento → jouer de; de + le → du.)
4. Nous parlons des vacances. (parler de + les → des.)
5. Il téléphone à sa mère. (téléphoner à; antes de sa não há contração.)
Quer parar de travar entre à e de na hora de falar?
Numa aula eu escuto você montar a frase e corrijo na hora aquele à le que escapa, ou o jouer au piano que sai trocado. A gente treina com áudio e blocos prontos — au parc, du musée, parler de — até a preposição e a contração saírem sem você pensar. É o jeito mais rápido de soar francês de verdade, e não português traduzido.
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